Pormenor d'O Juízo Final, Fresco da Capela SistinaMichelangelo
A partir de agora, participo no Blogue da Liberdade Democrática (aqui).
Verba volant, scripta manent.
Pormenor d'O Juízo Final, Fresco da Capela Sistina
sugestivo...
Paris and Helen, de Jacques-Louis DavidPara que o bem comum possa ser prosseguido deve ser cultivado um certo sentido de comunidade, e portanto de amizade cívica, sem com isso negar “a diversidade inevitável dos homens”. O “liberal conservador” concorda plenamente com a formulação de Burke, de acordo com a qual a sociedade é um “contrato” que vincula os vivos, os mortos e os que ainda estão por nascer, e com isso aceita que a natureza política e social do homem implica uma “obrigação” individual e colectiva relativamente ao passado, ao presente e também ao futuro.
E, para além disso, o “liberal conservador” atreve-se a colocar a perguntar fundamental: nós somos (e queremos ser) mais ricos, mais poderosos, numa palavra, mais prósperos, em vista de quê? A felicidade humana requer bens materiais de produção laboriosa, mas também requer bens espirituais que florescem apenas em ambientes especiais.
Como nortenho do Minho concordo com muito do que diz Alberto João Jardim (AJJ) em relação a Lisboa. E se concordo na substância, escusado será de dizer que não me identifico com a forma... Mas adiante. É um facto claro e evidente que AJJ é o principal responsável pelo desenvolvimento económico-social da Região Autónoma da Madeira (RAM) das últimas três décadas. E fê-lo sempre com o beneplácito do povo madeirense, que ao longo dos anos sempre ratificou nas urnas a política de AJJ, seja no tocante aos meios utilizados, seja no que toca aos fins conseguidos. No entanto, o modelo utilizado – assente no forte investimento público em infra-estruturas e na grande contratação pública (70% da população depende directa ou indirectamente dos órgãos ou entidades públicas) – deixa-me com algumas reservas, principalmente para o futuro. Não sou partidário deste modelo para o país, e espero, de igual forma, que o PSD nacional não o siga.
É agora um exercício puramente académico, mas seria bem interessante, aproveitando o carisma e a força de AJJ, ter a Madeira, logo após a conquista da autonomia, aproveitado para implementar uma experiência mais liberal e menos intervencionista na ilha. Mas enfim, foi aquele o caminho que os madeirenses escolheram e há que respeitá-lo... Nunca esquecendo, porém, que os madeirenses deverão ser responsáveis pela suas escolhas, não descartando nunca a solidariedade do resto do país (que espero não ser necessária) para com a RAM.
Aqui pelo Norte, limitámo-nos a poder fazer o que Lisboa deixar fazer e como o quiser fazer...

E enquanto que por cá, no que toca a política estrangeira, não se fala noutra coisa que não nas presidenciais gaulesas, pela Grã-Bretanha decorrem hoje as eleições para o Parlamento Escocês, para a Assembleia do País de Gales e para os Concelhos locais de toda a Grã-Bretanha com excepção de Londres (cfr. aqui e aqui). Estas eleições são de um interesse especial porque ocorrem num momento em que se dá a sucessão no Labour, com a já anunciada saída de Tony Blair, e com o sucessor Gordon Brown a enfrentar o crescimento e a provável vitória do partido nacionalista escocês SNP no Parlamento Escocês. E, segundo as sondagens, nestas eleições o partido trabalhista será mesmo o grande perdedor, e perderá principalmente para os Tories, já que não se prevê grande crescimento para o LibDem, ainda refém das polémicas passadas envolvendo os seus dirigentes. Enfim, será acima de tudo um voto de protesto (ao que nós chamamos de cartão amarelo) às políticas seguidas pelo Labour nos últimos anos. Resta saber até que ponto isto é verdade em relação às eleições para o Parlamento Escocês e se não estaremos perante um verdadeiro ressurgimento e estabelecimento do nacionalismo escocês face a Londres. Mas isto só o tempo o dirá...
Mas o que eu gostava mesmo é que não fosse tanta a influência de tudo o que vem de França neste nosso país à beira mar plantado...
Uma das vantagens de ler livros esquecidos de autores portugueses do século XIX é a de descobrirmos termos e palavras raras e em desuso, muitas delas já nem sequer constam dos dicionários mais completos. E tem sido assim nos contos de Júlio Dinis reunidos na antologia Serões da Província.
Pela primeira vez na minha vida li o termo "monelho" que parece ser o mesmo que um certo senhor esotérico utilizou num daqueles programas que os Gatos Fedorentos foram descobrir no baú dos tesourinhos deprimentes da RTP (cfr. aqui). E outros que tais: gasnate, motejos, salutífero, sendal, valetudinárias, anelos, polichinelo, truanesca, macróbia, requebros, escarmentou, preopinantes, estopa, héctico, ladina, só para citar alguns.
Um dia destes lembro-me e faço um dicionário de termos portugueses antiquados e em desuso para os aplicar em peças processuais e afins só para chatear os M.I. colegas e os meritíssimos juízes!


Ilíada, Canto II, 203-206 (Parênteses meus)
Assim falava Ulisses dos mil ardis aos homens do povo junto às naus nas praias de Tróia. E o rei era Agamémnon, o atrida, soberano dos homens.
Esta é talvez uma das passagens da Ilíada que mais influenciaram o pensamento político da humanidade durante quase 2500 anos. Aqui encontramos a entronização da teoria da transmissão divina e directa do poder de Deus para o soberano dos homens, que assim governa por direito próprio, e ao qual todos os demais ficam a dever total respeito e obediência. Esta seria a forma de garantir maior harmonia e ordem entre os homens. E assim foi, com uma ou outra experiência e modalidade, até que John Locke, nos finais do século XVII, nos obsequiou com a doutrina de que a origem do poder repousava num contrato celebrado entre os homens, que nascem livre e iguais, poder esse sujeito aos limites do Direito Natural e dos direitos individuais dos cidadãos.
É que Ilíada foi muito mais que uma obra de literatura, foi também todo um código de costumes e de conduta, a fonte e fundamento de um sistema político e social, uma obra com uma importância primordial em toda a civilização ocidental da qual somos ainda legítimos representantes.
António Pinho Cardão continua a brindar-nos com bons e perspicazes textos sobre a questão das finanças (cfr. aqui e aqui) em Portugal.
De facto, torna-se cada vez mais claro e evidente, e parece ser crónico em Portugal, que aumentando-se as receitas por via, entre outros, mas principalmente, do aumento da carga fiscal a despesa pública também aumenta, contribuindo assim para o crescimento do défice orçamental e asfixiando ainda mais débil economia portuguesa.
O caminho a seguir não pode ser outro que não a diminuição efectiva da despesa pública juntamente com a diminuição gradual da carga fiscal, principalmente em sede de IRC e IVA. Aliás, e tal como ouvi há tempos Rui Rio defender, seria assaz aconselhável aplicar a ideia da diminuição gradual e sucessiva da taxa de imposto tendo em conta a arrecadação de receita com esse mesmo imposto. Isto é, e tomemos como exemplo o IVA: a taxa de 21% actual arrecada por ano o valor x. Se a taxa for imediatamente diminuída numa unidade percentual, e passar para 20%, é consequência directa e necessária que a receita x irá diminuir. No entanto, com a baixa do imposto, o consumo aumentará aos poucos, fazendo aumentar de forma gradual a receita. E no momento em que a receita atingir novamente o valor x, deverá a taxa descer para 19%, e assim sucessivamente até se chegar a uma taxa de equilíbrio, que situo por volta dos 12-15%.
Parece-me ser esta a opção mais equilibrada e racional que o Executivo deveria urgentemente tomar. O país não vai enriquecer somente com pomposos discursos, powerpoint’s e simplex’s...
Graça a beber umas imperiais e a contemplar Lisboa e o Tejo. Sentir-me-ia rei de Lisboa por umas horas. Mas enfim, cá estou por Viana, com vista do gabinete onde estou para o 1.º andar do prédio em frente, no qual está colocada a seguinte tabuleta: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias - Visitantes são bem vindos. É esta a minha triste sina.- Foi sempre muito escrupuloso – disse ela por fim. – Tomava os deveres do sacerdócio demasiadamente a peito. E por isso, teve, por assim dizer, uma vida falhada.
- Sim – disse minha tia. – Era um homem desapontado. Via-se perfeitamente que assim era.
In Irmãs, conto reunido na antologia Gente de Dublim, de James Joyce.

2. E sabendo-se que aquele tempo ainda não é menor porque nunca foram cumpridos os prazos na reestruturação da linha do norte para aguentar as velocidades de ponta dos Alfa Pendulares, apesar dos 600 milhões de contos já investidos na modernização da rede da CP, faz sentido investir em toda uma nova infra-estrutura para garantir apenas menos uns minutos no tempo de duração da viagem?
3. Somos assim um país tão rico para esbanjar tanto dinheiro?
(muito atrasado é verdade, mas só agora consegui disponibilidade para tal)
Ora, é desde logo redutor, para não dizer errado, atribuir a uma classe ou grupo de pessoas formadas na mesma universidade a responsabilidade pelos destinos (bons ou maus) de um Estado. A responsabilidade é colectiva. Cada português, seja o português actual seja o do século XVIII, carrega em si o fardo da responsabilidade pelo tudo o que nos acontece e aconteceu. Claro está que a dose de responsabilidade é diferente em cada um de nós...
Em relação à intolerância, que Pedro Arroja encontra a sua génese na faculdades de Direito, maxime na de Coimbra (a única do país até ao início do séc. XX), há que recordar que antes de ingressarem nessas mesmas faculdades, a maioria dos seus alunos (a totalidade até o século XIX) foi formada/educada em escolas religiosas desde a sua infância, porque eram estas que dominavam o diminuto panorama educacional português até meados do século XIX. Deste modo, a tese de Pedro Arroja cai logo por terra, porque se há intolerância, esta já viria de trás. E como é evidente, as nossas universidades, infelizmente, sejam elas de direito, de economia, ou de agronomia, não são um universo desconexo do país, pelo contrário, elas espelham tudo o que o país tem de mal. Salvo poucas excepções, as nossas faculdades têm muita pouca qualidade e estão a léguas das faculdades estrangeiras.
Mas agora convenhamos, o conceito de Estado de direito democrático liberal que conhecemos a partir do século XVIII , e toda a panóplia de princípios e direitos tendentes a garantir a liberdade e dignidade humana que lhe estão associados, nasceram do intelecto e trabalho de juristas, filósofos, filósofos-juristas, e professores de Direito e Filosofia (caro Jorge A., não era até Adam Smith professor de Ética?).
A explicação para a intolerância de que Pedro Arroja fala terá de se procurar principalmente, na minha modesta opinião, em factores de ordem geográfica e social: a periferia de Portugal e a pobreza dos seus recursos por um lado; o fraco nível da educação e a mentalidade conservadora por outro. E o que fizeram e fazem os nossos líderes, sejam eles economistas, juristas ou engenheiros, perante este cenário? Ora, uns fizeram linhas de comboio, outros pontes, outros auto-estradas, agora uns querem fazer OTAs... E tudo com os melhores critérios económicos e jurídicos com certeza!
E não se esqueça o professor Pedro Arroja que nas actuais faculdades de Direito existe uma forte componente de ciência económica, pelo menos assim é na clássica de Lisboa. Mas longe de mim estar aqui a defender a clássica de Direito ou outra qualquer, porque bem sei como é aquilo no que toca à mediocridade dos alunos e dos professores, salvo algumas excepções. Por essa razão sempre mantive algum desprezo por listas para associações, RGA’s, colectividades académicas e afins.
O partido nacionalista português PNR faz tanto sentido em Portugal como uma viola num enterro. O PNR apenas é um exemplo, mais um, do nosso especial gosto de adoptar tudo o que seja estrangeirado, e demonstra a nossa incapacidade de gerarmos ideias próprias e mais adequadas ao nosso país. O PNR é uma cópia triste e deprimente dos partidos nacionalistas
da Europa Central rica. Se ab initio faz sentido questionar a utilidade de um partido nacionalista no Estado-Nação mais antigo do mundo - o nacionalismo é-nos transcendental - , não menos sentido fará questionar a pertinência das suas grandes apostas programáticas e de propaganda. Ora, em relação à imigração, bem sabemos que somos ainda um país que necessita de mão de obra estrangeira, aliás, todos os anos a emigração portuguesa ceifa da nossa terra milhares de portugueses. E isto de se dizer que os culpados da nossa situação são os imigrantes também é bem representativo da nossa cultura: a responsabilidade nunca é nossa, é sempre dos outros! E depois é a questão da segurança. Como se não fosse Portugal um dos países mais seguros do mundo e com o maior número médio de polícias por habitante. Mas não é só isto: um partido como o PNR que conta, nas sua militância, com elementos já condenados por homicídios e agressões com fartura, é um tanto ou quanto contraditório. E não fosse também no PNR que militam esses rufias que andam por aí com os pitt bulls e rottweillers... Enfim, ridículo... Se querem tanto ter um partido nacionalista, pelo menos que sejam minimamente sérios.
aliás muito mais que uma cerveja, todo um complexo de sabor e sensações, diz Francisco José Viegas: